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Conservatório de Música de Loulé - Francisco Rosado

Edifício após a recuperação
Edifício após a recuperação

Breve história do edifício do CML - FR

O Solar da família Barros e Aragão, localizado no topo da Rua Sacadura Cabral (antiga Rua Ancha), ter-se-á fundado sobre construções preexistentes dos séculos XVI/XVII de que ainda existem alguns vestígios no quadrante Norte/Nascente. A sua expressão arquitetónica integra-se no movimento renovador dos solares e pequenos palácios rurais e urbanos do período pós-terramoto, alguns dos quais incorporaram campanhas de obras de enobrecimento. As datas inscritas na escada de aparato, respetivamente 1812 e 1826, poderão revelar esta possibilidade. No Plano de Pormenor de Loulé é proposta a sua reconstrução e reabilitação, estando referenciado como “lamentavelmente degradado, nalguns locais em ruína, apresentando inúmeros acrescentos tanto em altura como em largura” (Duarte e Lamas, 1986: p.75), pelo que a intenção da Câmara Municipal de Loulé permitiu preservar ainda o que permanecia da identidade cultural do imóvel, classificado como Monumento de Interesse Municipal. Assume a denominação de “Solar da Música Nova” pela ocupação do espaço pela banda de música “Música Nova”, tendo sido adquirido pelo Município em 2008. 

Ao aprofundarmos e interligarmos o conhecimento histórico e social do edifício, os seus usos anteriores, a sua estrutura tipológica, com a sua constituição física, materiais e tecnologias, permitiu-nos dispor de uma visão de conjunto indispensável para uma intervenção alicerçada perspetiva sociocultural. Considerámos que os novos usos a instalar deveriam beneficiar da memória identitária valorizando-a, logo valorizando-se enquanto atitude de intervenção. Nesse sentido, reinterpretou-se a base tipológica preexistente adaptando-a às novas necessidades e clarificando os circuitos com especial destaque para o "deambulatório" em redor do pátio central. Este circuito, juntamente com a escada monumental serão os elementos centrais da identidade espacial em termos de circulação enquanto que os três salões principais do piso nobre, localizados na fachada principal readquiriram a sua importância como as unidades espaciais de referência. 

A instalação de duas entidades distintas (mas complementares) determinou que, apesar de poderem comunicar (de forma controlada), irão dispor de entradas distintas. Um novo edifício destinado a uso polivalente foi implantado a Poente enquanto ampliação do piso térreo do Solar, culturalmente integrado no espírito do lugar, enquanto volume complementar, distinguindo-se de forma serena e harmoniosa através da escala e proporções. Com entradas independentes, beneficia de um pequeno arranjo exterior que, em pausa das sessões culturais previstas, acolhe os espectadores, visitantes, artistas, etc. Este espaço procura estabelecer um diálogo com as memórias destes antigos solares cujos espaços envolventes remetiam para uma gramática de quinta de recreio e de produção agrícola, pelo que ali se encontram laranjeiras e um pequeno tanque de água. 

A abordagem ao conjunto arquitetónico procurou estabelecer um diálogo em continuidade entre dois tempos históricos e estéticos. O elevado estado de degradação em que se encontrava o Solar, em virtude da sua profunda alteração nos finais do século XIX, princípios do século XX, em consequência da sua recompartimentação e ampliação através de um novo piso, e do seu progressivo abandono, implicou uma abordagem técnica e cultural exigente. A reinstalação do anterior uso relacionado com a educação musical, requereu dotar o edifício de uma rede de infraestruturas, indispensável para o adequado funcionamento das respetivas entidades instaladas, cujos requisitos acústicos são determinantes, pelo que foram cuidadosamente integradas na estrutura tipológica do Solar e não o inverso. Ou seja, pretendeu-se repor a identidade espacial preexistente de modo a que se reconheça a identidade cultural enquanto edifício uno, precisamente espaço, expressão e forma. Evitou-se assim o esvaziamento da unidade espacial em favor da exclusiva defesa das fachadas, reafirmando-se a unidade espácio-funcional e volumétrico-formal. 

Resgatar a ruína, enquanto reconhecido valor patrimonial e de estima pública, implicou estabelecer um compromisso de custo-benefício em favor da comunidade, e é precisamente este equilíbrio que se procurou nas opções tomadas. Sobretudo por estas permitirem um adequado uso dos espaços e salvaguardar-se, no plano cultural, a memória patrimonial deste Solar. Em ambas as realidades, respetivamente edifício histórico e novo auditório, se procurou no plano tecnológico estabelecer compromissos entre sistemas avançados e sistemas tradicionais de modo a se estabelecerem equilíbrios em duas frentes, respetivamente equilíbrio de gastos energéticos procurando integrar sistemas mecânicos mínimos e complementares ao próprio âmbito construtivo do edifício que integra diversos sistemas passivos na área da térmica e acústica.

Autores: 

Arquitetos responsáveis pela

recuperação do edifício

 

SLIDESHOW com fotos ANTES e APÓS a Recuperação

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